Artigos do Professor Marins e textos discutidos nos Programas de TV

Os Desafios de Entender Sorocaba


Não é fácil entender a nossa Sorocaba. Que o digam as pessoas que vêm de outros lugares. Em Sorocaba parece ser tudo diferente. Desde o modo de falar até o conjunto de valores. Somos diferentes de outras regiões e mesmo cidades de nosso mesmo Estado de São Paulo.  O que faz de Sorocaba uma cidade tão diferente?

 O tema é muito polêmico. Mas acredito que o que marcou Sorocaba como diferente (e marca até hoje) foram os 250 anos de Tropeirismo, que somados à nossa Estrada de Ferro Sorocabana, moldaram um cidade única, do ponto de vista antropológico social.

 É importante lembrar que Sorocaba, berço do tropeirismo, nunca teve uma aristocracia rural. Foi sempre uma cidade essencialmente mercantil. Viajar, comprar e vender são as maiores características de uma sociedade tropeira. Assim, Sorocaba é uma cidade de comerciantes natos, negociantes natos. Isso nos faz diferentes.

 Por isso, Sorocaba não é uma cidade com "elites" no sentido aristocrático. Não temos famílias importantes. Não temos clubes exclusivos. Sorocaba é uma cidade igualitária onde a mobilidade social é dada mais pela condição financeira e do círculo de relacionamento mercantil das pessoas do que pelo "nome de família" ou condição cultural ou de erudição do indivíduo.  Até por isso e pela própria história do tropeirismo e da EF Sorocabana, nossa cidade sempre foi um dos mais dinâmicos pólos comunistas do Brasil.

 Em Sorocaba, ninguém senta no banco de trás de um táxi. Poucos usam gravata em seu trabalho. É muito difícil encontrar na construção civil profissionais "bons de acabamento" que exige grande atenção aos detalhes. Nossas balconistas têm muita dificuldade em fazer um bom "embrulho para presente" que também exige um certo refinamento estético que pouco valorizamos.

 Sorocaba é forte de "conteúdos" e fraca de "continentes".  Não temos muita paciência com "etiquetas", "protocolos" e "aparências". Se o vinho é bom, pouco importa se está sendo tomado num cálice de cristal alemão ou num copo de vidro. O que importa é o vinho e não o cálice. Se o queijo é bom, pouco importa se é servido dentro dos preceitos recomendados pelos manuais de "como servir queijos". O que importa é o queijo. É o "conteúdo".

 Já nas sociedades aristocráticas, o conteúdo e o continente têm a mesma importância – e às vezes, o continente importância maior que o conteúdo. Assim, o vinho pode não ser muito bom, mas o cálice tem que ser o "correto". O peixe pode não ser lá essas coisas, mas os talheres são especiais e próprios....

 Com esse valor essencial ao conteúdo, também não nos preocupamos muito com o trajar.  Roupa "boa" é roupa "confortável". Sapato "bom" é sapato "confortável". Não nos damos ao trabalho de nos vestir "de acordo" com tal e qual ocasião – como nas sociedades aristocráticas. Meia-hora depois de iniciada a festa de casamento começamos a nos despir, sem nenhuma cerimônia. As pessoas tiram a gravata, o paletó e até o sapato se for desconfortável. E isso não escandaliza ninguém!

 Vamos ao shopping da mesma forma como estamos em casa – "confortavelmente" vestidos com nossas camisetas promocionais, bermudas e chinelos. E daí? Como diria Zéca Pagodinho, somos mais "meu chinelo de dedo do que cromo alemão importado".

 Somos quase incapazes de fazer um bom "protocolo" em qualquer cerimônia. Chamamos os "amigos" e não as "autoridades constituídas" para formar a mesa diretora dos trabalhos. E se alguma "autoridade" fizer cara feia – daí sim – mostramos do que somos capazes de fazer para mostrar que aqui é diferente: Simplesmente "gelamos" a autoridade e a colocamos em último lugar! Assim, em Sorocaba estará socialmente "morto" quem ousar dizer: "Sabe com quem você está falando?"  Pode ser juiz de direito, promotor, industrial ou quem quer que seja – aqui somos todos iguais. E ai de quem ofender alguém de menor condição social! O sorocabano vira bicho ao ver alguém que "se ache" uma "autoridade" ofendendo uma pessoa simples. É a maior das indignidades para uma sociedade igual.

 Prova disso é o palanque das autoridades nos desfiles cívicos. Sobe no palanque quem quiser subir. É impossível dizer a alguém que ele "não pode subir porque não é autoridade". Todos nós nos achamos "autoridade" porque pagamos impostos, conhecemos o prefeito desde criança, conhecemos os pais, os avós, e portanto, somos iguais.

 Nas sociedades aristocráticas, as autoridades no palanque convidam as pessoas para que subam e ninguém quer subir. Elas não acham apropriado estar num lugar a que não pertencem. O sorocabano, ao contrário, se vê pertencendo a tudo o que ele quer pertencer. E daí?

 Assim para entender Sorocaba é preciso compreender que o "papel social" que uma pessoa desempenha em Sorocaba não lhe atribui o "status social" correspondente em outras sociedades.  Assim, todos são chamados de "você" e, de preferência da forma mais coloquial possível e, pelo apelido, se tiver. Pode ser o prefeito, o reitor da universidade, o presidente de uma empresa, o juiz de direito, o delegado de polícia. Todos são iguais no conteúdo – amigos – e o continente pouco importa. Assim, uma pessoa que queira ser tratada com os símbolos de autoridade em Sorocaba logo desiste. E é melhor que desista mesmo, pois não fará vida em nossa urbe.

Sorocaba, ainda tropeira?

 Como todos sabemos o tropeiro sorocabano ia ao sul buscar os muares para comercializar em Sorocaba. Os muares eram o meio de transporte da época. O ciclo do ouro, o ciclo da cana, o ciclo do couro foram todos feitos nos lombos dos muares comprados em Sorocaba de maio a setembro de cada ano.

 Hoje o meio de transporte não é mais a mula, o burro, o muar. São os automóveis, os caminhões, os veículos automotores, enfim.

 Outro dia um comerciante de automóveis de Belo Horizonte me disse que Sorocaba é considerada a capital nacional do carro usado!

 Temos dezenas e dezenas de lojas de automóvel em Sorocaba! Os nossos "novos tropeiros" comerciantes de automóvel vão a todo o Brasil comprar carros para serem vendidos em Sorocaba. As ruas Sete de Setembro, Comendador Oéterer – apenas para citar duas –  são verdadeiras "feiras de muares modernos (automóveis)" – uma loja de carros ao lado de outra!  É o mesmo "conceito" tropeiro impregnado na alma sorocabana que faz com que todos sejamos "comerciantes" de carro. "Nunca vi  gente para trocar tanto de carro como o sorocabano" disse-me um empresário do ramo. E as lojas de acessórios para automóveis? São os modernos fabricantes de "redes e facas" que tornaram Sorocaba tão famosa no passado!

E de vender muares e automóveis, o sorocabano vende tudo. Não tem uma mulher que não venda alguma coisa – tupperware, Avon, Herbalife, toalhas do nordeste, cosméticos em geral!  O leitor ou a leitora conhece alguma amiga que vende jóias? Garanto que conhece mais de dez! E nem sempre vendem por necessidade. É pelo puro "gosto mercantil" da alma sorocabana. Vá numa escola qualquer e veja a hora do intervalo na sala dos professores: É um verdadeiro bazar! Todas as professoras vendem alguma coisa! E nos escritórios? Nas fábricas? Vá nos refeitórios e veja as "bancas" de tudo o que você imaginar! Isso sem falar na "Feira da Barganha".... imensa e que atrai milhares de sorocabanos e forasteiros que para lá se dirigem para dar vazão ao instinto tropeiro.

O número de "chás de venda" que as mulheres sorocabanas fazem em suas casas e nas casas de suas "clientes" é incrível! Comprar e vender é a nossa praia! Na aristocracia, "vender" é uma atividade subalterna. Só mesmo quem "precisa" sobreviver tem essa atividade considerada pouco meritória....

O pesquisador da alma sorocabana, Ribas, o Marvadão, um antropólogo de facto, todos os dias nos aponta nossas diferenças e unicidades. As "sorocoisas" são realmente "coisas nossas" e só nossas, beliscadas no cotidiano pela perspicácia do Marvadão, que não nos deixa esquecer quem somos.

E assim, com "conteúdos" fortes e "continentes" fracos, damos mais valor à amizade e ao "interior das pessoas" do que às aparências.  Amigo é amigo! Não fale mal dele para mim que eu brigo! "Ele pode ter feito muita coisa errada, mas não quero nem saber – é meu amigo!" e a força da pessoa se sobrepõe aos feitos.

Então, lembre-se o leitor: Algumas coisas são fatais para qualquer pessoa que queira viver e compreender Sorocaba. E essas coisas são –  ser metido ou metida! Querer aparecer demais. Querer ser mais que os outros. Ofender os humildes. Querer ser "chic". Contar vantagem e, logicamente, não comprar e não vender nada....

É por tudo isso que amo Sorocaba, tropeira, brincalhona, única em seus 350 anos!

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