Artigos do Prof. Marins e textos dos programas de TV

Quando dizer "eu não sei"


Ele era médico cardiologista de renome. Estava em meio a um festivo grupo, daqueles que se reúne em qualquer lugar e sem motivo. No grupo, comerciantes ricos, um industrial de pequeno porte (a indústria) um funcionário público, um político contumaz e um bancário. O assunto era "hipertensão arterial e seus riscos".

Não deu outra: todos entendiam do assunto mais que o renomado jurado de Hipócrates. O pobre médico, entre pasmo e irritado com tantas asneiras que eram ditas com ares doutos pelos seus companheiros de charla, mal obteve espaço para dizer um "A".  E quando ele encontrou a brecha e falou algo da ciência que lhe era afeita, foi logo "desmentido" (sic) pelo fátuo comerciante que lhe disse: "- Já vi que disso você não entende nada" e logo mais adiante o industrial emendou: "- Li numa revista, na sala de espera do meu dentista, que não é nada disso...".

Não preciso dizer que a conversa terminou com todos discutindo um assunto do qual só um entendia e que foi literalmente proibido de falar. E é sempre assim.

Tenho participado de rodinhas as mais incríveis em que os assuntos são dogmaticamente colocados com a firmeza, segurança e tom diretamente proporcionais à ignorância dos participantes.

Outro dia tive que ouvir calado um advogado discorrer sobre "antropologia dos primitivos" (sic) e dizer tantas patacoadas quanto sua frenética boca era capaz de produzir, uma vez que não posso admitir que aquele amontoado de impropriedades possa ter vindo de alguma inteligência.

E o mais interessante é que essas pessoas ainda concluem as suas doutrinações com a frase: "Sei tudo isso porque leio muito. Leio 4 livros por semana..."

O que tem de gente que lê 4 livros por semana em nossa terra, não é brincadeira! E não são aposentados, nem pensionistas do INPS. São homens e mulheres da lide. E quando pergunto como conseguem e a que horas lêem tanto, respondem que lêem à noite, pois odeiam novelas. Passo a comentar os capítulos da Roda de Fogo e essas pessoas estão a par de todos os detalhes da morte do Paulo Costa e da doença do Renato Villar...

E é por tudo isso que as conversas e as reuniões sociais em nossa terra são tão chatas. Todo mundo fala, e sempre dogmaticamente e sempre emocionalmente, das coisas de que não entendem e que, de fato, não tem nenhuma obrigação de entender. Quem entende do assunto em pauta, desiste de falar, concorda "democraticamente" (sic) com a troupe ignara e o assunto acaba, murcha, e todos saem mais burros do que quando começaram. E como seria bom, se pudéssemos ouvir o comerciante falar do seu comércio, o advogado de suas causas, o médico de sua ciência, o artista de sua arte, perguntando, discutindo, crescendo, aprendendo, fazendo ilações, criando analogias e buscando intercomplementariedades.

A maior virtude do homem é saber dizer "EU NÃO SEI" ou "EU NÃO ENTENDI" e perguntar e querer saber. Convivemos há anos com uma pessoa e não sabemos sequer o que ela faz, como faz, porque faz. Julgamos, pré-julgamos, opinamos, sem saber, sem conhecer, sem sequer perguntar.

Parece que temos uma terrível vergonha de não saber de tudo, de não entender de tudo, de não ser doutor em tudo. E aí caímos no ridículo de doutrinar unicamente pela intuição.

E não me julguem os leitores um néo-positivista que acha que uma pessoa não deve sequer pensar sobre aquilo de que não entende. Pelo contrário, sou adepto do discutir, do perguntar, do debater, do rebater, do perquirir, do cismar, para que então, passemos a compreender melhor aquele determinado assunto. Porém, não vamos nos confundir. Não é simplesmente pelo fato de ter conhecido um pouco mais de determinado tema que posso pontificar sobre ele em outros grupos. Essa "cultura de almanaque" e Você Sabia?" não leva ao conhecimento do espírito crítico, tão necessário em nossos dias e para nossas relações sociais.

Talvez a nossa avidez em discutir futebol (também sem entender) nos tenha levado a pensar que todos os assuntos possam ser debatidos com a mesma insensatez que o ludopédio. Ouvi um dia, um emérito professor de Direito Constitucional desesperar-se com as impropriedades que vêm sendo ditas sobre a "Carta Magna" nestes tempos em que milhões de semi-disléticos passaram a sentenciar sobre o tema (sic).

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